Octávio Paulo Neto, coordenador do Gaeco do MPPB, relatou mudança na relação entre candidatos e lideranças locais durante reportagem da Revista Piauí
O avanço da influência do crime organizado sobre a política e os processos eleitorais chegou à Paraíba e passou a ser alvo de investigações de órgãos de segurança e do Ministério Público. O tema foi abordado em reportagem publicada pela Revista Piauí na última quinta-feira (6).
Entre os relatos apresentados pela publicação está o do promotor de Justiça Octávio Paulo Neto, coordenador do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público da Paraíba. Ao comentar a atuação de grupos criminosos em comunidades, o promotor afirmou que houve uma mudança na relação entre candidatos e lideranças locais.
“Se antes o candidato pedia votos para os líderes comunitários, agora ficou refém do líder da facção que controla o bairro.”
A reportagem cita casos investigados em Cabedelo e João Pessoa, onde autoridades apuraram suspeitas de aproximação entre grupos criminosos, agentes políticos e estruturas da administração pública.
Caso de Cabedelo
Em Cabedelo, a publicação aborda a atuação de Flávio de Lima Monteiro, conhecido como Fatoka, apontado em investigações como liderança ligada ao crime organizado.
Segundo informações atribuídas à Polícia Federal pela Revista Piauí, Fatoka teria utilizado sua influência para interferir no processo eleitoral do município. A reportagem relata que o grupo teria apoiado a eleição de um vereador em 2020 e, posteriormente, ampliado sua presença dentro da estrutura administrativa municipal.
Ainda de acordo com a publicação, investigações apontaram que pessoas ligadas ao grupo teriam sido nomeadas para cargos comissionados e que contratos públicos teriam sido firmados com a empresa Lemon, apontada pela PF como ligada ao traficante.
Nas eleições municipais de 2024, a reportagem afirma que Fatoka teria apoiado a candidatura de André Coutinho à Prefeitura de Cabedelo e que o grupo teria possibilitado a realização de atividades de campanha em áreas sob sua influência.
Coutinho foi eleito, mas posteriormente teve o mandato cassado pela Justiça Eleitoral por abuso de poder político e econômico. A decisão foi mantida pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Após a cassação, Edvaldo Neto assumiu a Prefeitura. Segundo a reportagem, investigações do Ministério Público apontaram que ele teria mantido vínculos com o grupo e favorecido a empresa atribuída a Fatoka em procedimentos licitatórios. Edvaldo acabou afastado do cargo por decisão judicial.
Investigação também alcançou João Pessoa
A reportagem da Revista Piauí também cita investigações relacionadas às eleições municipais de 2024 em João Pessoa, especialmente na região do bairro São José.
Segundo a publicação, Maria Lauremília Assis de Lucena, ex-primeira-dama da capital paraibana, foi investigada por suspeita de envolvimento em um suposto acordo com integrantes de uma organização criminosa para dificultar a atuação de adversários políticos na região.
Ainda conforme a reportagem, as suspeitas envolviam possíveis promessas de nomeações para pessoas ligadas ao grupo criminoso e repasses de recursos para uma organização não governamental.
Lauremília foi presa pela Polícia Federal em setembro de 2024 durante a operação que investigou o caso, mas posteriormente foi colocada em liberdade por decisão judicial. Ela responde a processo por suspeitas de peculato, corrupção eleitoral e associação criminosa. As acusações ainda não foram julgadas definitivamente, e a defesa nega as irregularidades.
O ex-prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena, marido de Lauremília, não é acusado no processo citado pela reportagem.
Os casos relatados reforçam o alerta de autoridades para os riscos da utilização da estrutura do crime organizado como instrumento de influência política, especialmente em períodos eleitorais. Para o Ministério Público, o fenômeno representa uma ameaça não apenas à segurança pública, mas também à liberdade de escolha do eleitor e ao funcionamento das instituições democráticas.